“depois que o passarinho chegou”…

Fatídico tempo que nos arrasta para nossas verdades mais severas.

Simpático tempo que nos desvencilha de ardores equivocados…

Pensamentos aleatórios musicalizados por um passarinho que me chegou há um tempo e me levou para meu sótão de paixões circenses… Algumas platônicas.

E do reverso das paixões eu também entendo… Como tudo mundo.

Num sábado de madrugada liguei a tv e lá vejo atrás dos microfones o olhar envelhecido e entristecido do Caetano e da Gal. O da Gal, ainda mais. O Caetano já não sabe mais dissimular seu desagrado com o show bis. Demorou… Eu já tinha tentado ouvir algumas músicas que ele fez para o CD da Gal, mas não prossegui. “Brochei” no meio… Acontece.

Certas brochadas (de natureza emocional, vale a ressalva) funcionam como um alarme… Aquele que grita na sua orelha: “Não vira mais!”. E assim pude constatar que toda paixão, qualquer que seja o objeto, desbota, perde o gosto, vira fumaça. Percebi que até o solo da minha ilha da fantasia sofre erosão… E a culpa continua sendo da lucidez.

Mas tudo tem cura ou tem uma aventura nesta vida.

Quem tem por filosofia de vida a contemplação, não passa muito tempo sem arrumar logo outro objeto do desejo.

Mais tarde eu retomo isso…

Enfim…

Em tempos em que impérios cedem à força atrativa do abismo, se sua alma for sensível, segure-se no que há de realmente louvável na decadência… Só olhos mais sensíveis veem e entendem isso… Tom Zé, por exemplo, é bom nisso. Caetano não. Nem se esforçando e cantando Odair José. Caetano tá mais para Pondé e Diogo Mainardi, que para Gabriela Leite (se você precisar do google para saber quem são, seu caso é grave. Mas sempre há esperança de cura).

Para eu chegar a esta declaração, é realmente o fim de um entusiasmo que me motivou durante a maior parte da minha vida.

Pois é.. E eu aqui, “brochada”, tenho que admitir que meus encantamentos são mais frágeis do que queria que fossem. E aí  está um crescimento necessário, sóbrio e implosivo.

E das cinzas, sempre, minha querida Fenix dando-me inveja dos seus voos corajosos por aí… Cheguei na aparição do meu novo fetiche artístico…

Me apareceu um “passarinho” cantando umas coisas diferentes e poéticas a tal ponto que parei para ouvir mais do que umas dezenas de vezes… Teste-drive antes de assumir qualquer paixão, galera! Faz parte do crivo.

Novo encantamento…

Fui ao show do pássaro Criolo.. Quase um gavião rei… Na rua…

Olhei de longe, olhar tímido, interessado e metodológico… Até a primeira meia hora. Daí em diante o olhar foi outro.

E aquela bela frase que você se diz, ou nem precisa, quando percebe o estrago no peito: foi inevitável.

Que a “jossa nova” me perdoe, mas o passarinho chegou e tomou o lugar da velha coruja.

E que fique…

Do encontro

o encontro oferece à alma

a possibilidade da imensidão

que o corpo só não experimenta

Perpetuar

Tornar perpétuo, eternizar, imortalizar.

Perpetuar um gesto: imortalizar o pensamento? O sentimento?

E quem dirá se sabemos como o fazemos?

Esculpido, grafado, gravado, reproduzido o que  não mais é e o que jamais voltará a ser.

Na obra, na fala que mancha a folha de papel, na desventura delatada ou na missão assumida, sofrida.

Perpetuar o humano e o mais humano: o belo e o feio, o poder e a queda, a alma e o corpo que perece.

Perpetuar o tempo que dura a canção popular ou o cargo político.

Congelar na fotografia o tempo da bola vestida com o véu do gol para eternizar a vitória, e a derrota.

Eternizar-se na lenda, na crença do povo, num sonho de poder (mais), na negociação impensada, na concessão indesejada e na dissimulação obrigatória.

Para se tornar concreto, asfalto e alimento. Depois, desmantelamento.

Para estarmos atentos ao que nos aproxima em irmandade, perpetuemos fragilidades.

A fortaleza, um dia, rui.

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