Os homens adoram saber o que pensamos sobre eles, mas sem generalizações… A particularidade de cada um tem a oferecer no encontro dos corpos.

O homem que amava as mulheres: o título do filme em português foi muito mais feliz e completo que o original (Vie Héroïque). Parabéns aos tradutores!
Por mais estereotipado que o pensamento masculino seja, obtuso e pragmático, ele sabe florear conceitos e imagens como ninguém. Nós mulheres sabemos disso e morremos de medo dessa fluidez de símbolos mentais dos nossos homens.
Essas figuras - peças – mentais em nada tem a ver com um sentimento (domesticado) pela figura da mulher amada, a mãe dos filhos, a namorada da adolescência e assim por diante. Vale dizer.
A (auto)castração feminina nem sempre aceita ir tão longe, mesmo tendo a mesma capacidade de abstração. É compreensível do ponto de vista educacional.
Agora quero escrever sobre os homens… Voltemos ao assunto.
Assistindo ao filme de Gainsbourg consolidei a minha máxima de que não existe homem feio, apesar de nem todos serem bonitos. Existem os homens interessantes e, consequentemente, os outros.
Não estou falando de um tipo de “(in)justiça natural”, longe de mim. Ao contrário, estou falando de como os seres se moldam ao longo da vida.
Ascensão e queda existem para todos: ponto pacífico entre mim e meu leitor.
Falo de atração, de contemplação e de interesse: un caractère fusionnel attirant l’un vers l’autre…
E nada é estanque nesse sentido, posto que os bons fetiches, do mais naïf ao mais biblicamente incorreto, são plantados em terrenos arenosos que nem a psicanálise dá conta de acessar plenamente. Seria realmente necessário acessá-los por uma metodologia do inconsciente? Não tenho resposta mais.
A contemplação é o antídoto contra o tédio que afeta todas as relações, especialmente as sexuais.
O que motiva a contemplação – móvel ou imóvel – diante do objeto desejado?
O desejo de prendê-lo na memória, ou seja, de apreendê-lo.
Assistindo ao filme do Gainsbourg fiquei pensando na atração que certos homens considerados feios exercem sobre as mulheres mais lindas que já se viu… E não me venham com aquela máxima de que famoso é sempre belo e aquele pensamento tacanho de que o dinheiro embeleza qualquer um.
Reducionismo misturado com preconceito e inveja: é isso que se esconde nesse discurso, mesmo que haja tanto oportunismo no mundo-vitrine, eu sei…
Existe um appel masculino que as mulheres identificam em homens audaciosos que ousam ir além do que o homem bonito diminuto arriscaria. É essa pimenta da alma que ativa o cio feminino, sem dúvida.
Palavras um pouco picantes, agora… Il me faut, afinal estamos falando de fusão carnal, não de amor.
E como diria Gainsbourg: “je m’en fous de l’amour!”
Sim… Em se tratando de sexualidade, amor não tem vez, que me desculpem os menos iniciados ao mundo dos instintos – ou os adeptos calorosos do processo civilizatório dos instintos.
Quando alguém me conta que foi procurar uma sexóloga e/ou terapeuta porque a relação com o marido ou com a mulher perdeu o tesão, eu não digo nada… Essa pessoa não suportaria ouvir minha opinião pouco catalogada, apesar de compreender a aflição. O que eu vejo, de fato, é o fim da motivação para a tal da contemplação.
A proximidade faz isso. Désolée.
Como já dizia a letra bobinha e sábia do rock dos anos 80: procuramos independência, acreditamos na distância entre nós. Tá dito.
Eu entendo a função dos moldes sociais, os respeito todos de forma muito careta e precavida. Talvez por isso sei me posicionar criticamente diante deles.
Optar por uma vida sexual regrada é tão ou mais difícil que optar por uma vida sexual “colorida”. Todos sabem disso… Os que estão sentados na poltrona da sala de estar ou os que estão curtindo a maior ressaca de uma noitada pra lá de profana.
“Vida sexual colorida” eu li no meu horóscopo esta semana… Podem rir!
Sim… Reativei estas bobagens celestiais recentemente e percebi que existe uma leveza adorável nas palavras do além (imaginário de quem escreve essas coisas)… Estou num momento que me permite e demanda alucinações assim.
Os céus são tão negligentes quanto nós mesmos. Quanto aos nossos ímpetos sexuais, então.. Nem se fale.
Cruzando desatentamente o olhar com alguém no trânsito ou quando o motorista do carro te deixa atravessar na faixa de pedestre para poder apreciar teu rebolado do começo ao fim, não há liturgia que dome isso.
Não tem hora nem lugar para se manifestar e não precisa do aval da sexóloga ou da especialista em comportamento: é vida, e por ser vida, pulsa.
E a mulher mais resolvida com sua sexualidade sabe encontrar suas brejas e seus momentos para exercer a mesma contemplação, o mesmo encantamento pelas dobras, pelas curvas, pelo desenho corporal masculino e pelos movimentos que esse corpo realiza em situações tão diversas…
E que obra mais divina, essa…
Tenho uma forte tendência a acreditar que o nu masculino é cerceado e escondido pelos meios de comunicação porque é muito mais provocador que o nu feminino. Mas são só especulações da minha alma inquieta.
A fumaça do cigarro do Gainsbourg seduz tanto quanto sua arte ou sua ardência sexual e o filme prova isso: o elo entre o sensorial e o imaginário que não pode deixar de existir para que a sexualidade seja sadia.
As relações duráveis perdem esse “curto circuito” corporal por várias razões, nem sempre tão filosóficas…
Passa inclusive pela (des)organização da rotina: a lista do supermercado, a falta ou excesso de grana, a visita dos sogros, a lasanha salgada demais do domingo e as noites mal dormidas por causa da febre do filho.
São satisfações diferentes…
Quem privilegia a realização emocional-afetiva vai preferir abrir mão do calor da alma, pela amenidade da consciência. Isso é legítimo. E daí, até os conselhos da sexóloga para aquela mulher que nunca conseguiu se ver nua diante do espelho vão ajudar.
Tem lugar para tudo e para todos neste mundo diverso.
A mulher que se permite experimentar o universo masculino em seus tons, timbres e sabores, saberá encontrar a beleza da tez, do som da voz, do contorno das pernas, enfim… A mulher atenta sabe procurar onde está a particularidade do homem com quem se deita, seja ele o mesmo há 20 anos, seja ele o desconhecido.
Ao contrário da estética feminina, expositiva e moldada pelo mercado da beleza, o homem guarda sua rudeza estética na forma naturalmente pronta.
A beleza masculina é crua, não passa por “modos de preparação”…
Gerard Depardieu é um excelente exemplo… Seu jogo de cena inato é capaz de cativar a mulher da qual eu falo – a que não precisa de conselhos de consultório.
Não existe homem feio, existem homens desinteressantes.
Nem sempre o dia inspira a sedução entre os corpos, isso tem que ser dito. Nem sempre a brincadeira diverte tanto quanto era esperado.
Mas os corpos falam por si… Sem tantos especialistas – de moda, em comportamento, em sentimentos, em gêneros, número e graus… – nós seríamos menos aprisionados em modos de se pensar o outro e daríamos mais espaço para nossos anjos e demônios sensoriais se entenderem com nossos fetiches.
O perigo é esse: identificar nosso prazer pode ser perigoso demais, pois não inclui o culto ao sentimento das novelas românticas.
Estamos (quase) convencidos que de há uma única alma gêmea no planeta que nos realizará de A a Z.
Pura abstração para se manter uma conduta civilizatória ou de fato uma predisposição à conservação da tal zona de conforto?
Não sei dizer…
Eu só penso que vida é movimento… harmônico por vezes, caótico quase sempre. Hormonal, inclusive.
E o que me salva do naufrágio é, sem dúvida, tudo o que eu complemento: o belo, o feio, pouco importa.
O que importa é o desejável.